segunda-feira, 1 de junho de 2009

Entrevista com Luiz Rebinski Júnior

ENTREVISTA
Um dos expoentes desta tendência jornalística é Luiz Rebinski Júnior, escritor, crítico de cultura da revista digital Brasileiros e colaborador de sites culturais como Bestiário, Rabisco, Rascunho e Digestivo Cultural, e que em sua entrevista nos concede um pouco do seu conhecimento sobre esta nova realidade:
1 - Qual o conceito de cultura para os veículos de mídia e jornais atualmente?
R - Há muito tempo que o conceito de “cultura” deixou de se referir apenas ao que é produzido por artistas nas mais diferentes vertentes da arte. Há pelo menos 30 anos, o jornalismo cultural brasileiro abandonou a postura acadêmica sisuda e hermética, que tinha quando nomes como Antonio Cândido (na literatura) e Paulo Emílio Salles Gomes (no cinema) dominavam o debate sobre cultura no país. Um tempo em que o crítico era uma espécie de entidade divina, que não poderia ser contestado. Quantos comentadores de cinema, literatura ou artes plásticas existem hoje? Sem contar que o leitor pode dialogar, contestar, discordar de quem comenta algo. É claro que essa mudança tem dois lados: se antes o debate cultural era feito para dentro, apenas para um círculo restrito de abnegados, hoje, bem mais acessível e aberto, o jornalismo cultural, principalmente dos jornais, não consegue romper a barreira do agendamento, que pauta grande parte dos suplementos. Os jornais ficaram reféns dos lançamentos, vernissage e pré-estréias. O debate mais aprofundado ficou restrito a veículos especializados e revistas onde se pode investir – tempo e dinheiro – em pautas menos fugazes. Em resumo, ainda estamos em um momento em que os cadernos de cultura estão se adaptando a um novo modelo, que a chegada da Internet impôs. O problema é que ninguém sabe qual é esse modelo.
2 - Quais são os meios de comunicação que mais se adaptaram a este novo modelo?
R - A Folha de São Paulo é exemplo de contraponto a esse jornalismo antigo. No caderno você não encontra apenas resenhas de livros, filmes e peças teatrais. Há ali debate sobre temas da sociologia, economia, antropologia, temas acadêmicos, mas também textos leves sobre cultura pop, por exemplo. Um caderno sério, de qualidade, mas que não se restringe aos temas “culturais”, como um leigo poderia definir. Já a Ilustrada, que nos anos 80 foi o principal caderno de cultura do país, vive uma outra situação. É um caderno que está imerso na crise de identidade que abate não só os cadernos culturais, mas todo o jornalismo diário impresso. A Ilustrada, mas não só ela, ainda não sabe que caminho seguir diante da influência cada vez maior da Internet. O fato é que não pode querer competir com a Internet, precisa achar um outro caminho para conquistar um público que não está acostumado a ler jornal, a ir à banca comprar a Folha só para ver o que o Inácio Araújo achou do último Tarantino. O que, em minha opinião, é ruim, péssimo. Se os jornais sumirem, o povo vai ficar mais desinformado, para dizer o mínimo. Mesmo com todo oba-oba da web, a Internet ainda não dá dinheiro para os meios de comunicação. Um site não sustenta uma redação. Então temos um senhor problema.
3 - Qual o papel da Internet para o jornalismo cultural?
R - Há milhões de sites falando sobre cultura. Qualquer piá que vai ao cinema com a namorada pode fazer um blog e escrever sobre a experiência que teve. O problema é que essa abundância de informação só serve para deixar em evidência o que é bom e o que é meia-boca. O site do New York Times é o mais acessado do mundo, até pouco tempo superava o número de acessos do Twitter nos Estados Unidos. É claro, o NYT é muito acessado porque é bom, tem um banco de dados fabuloso e mantém uma redação com mais de 1300 jornalistas, espalhados pelo mundo todo. O que você quer ler? O gordinho que foi ao cinema com a namorada, ou a cobertura de Cannes do NYT? Mas veja, não seria nem louco de dizer que a internet só produz isso, mas é fato que jornalismo de qualidade, seja cultural ou não, custa caro. E não só isso: requer dedicação, disciplina, ética etc. É ótimo que hoje nós não temos apenas a Folha, o Estadão ou a nossa Gazeta do Povo para buscarmos informação.

4 - Como os veículos impressos estão se atualizando com o advento da internet?
R - Como falei acima, acho que eles ainda não sabem como lidar com o crescimento da internet, com a perda de leitores e com as receitas em queda. Os sites dos jornais tentam se aproximar desse público pouco afeito ao papel, mas ainda não acharam a fórmula ideal. Em termos práticos, o jornalista hoje está muito mais versátil: ele fotografa, grava podcast e fala no vídeo. Mas isso não é o ponto nevrálgico da questão. O papel não tem a mesma versatilidade e rapidez da internet, por isso não pode competir nesses termos com ela. O jornal impresso caminha muito mais para a análise do que para o furo. O furo vai ficar com a internet, ao que parece. Ao jornal, restará a investigação e a análise aprofundada dos temas, o que não é pouco. No jornalismo cultural, talvez isso esteja mais evidente. Os roteiros e guias de cinema você encontra na internet. Mas para textos de maior fôlego, você ainda recorre às revistas e suplementos de cultura. Você conhece algum site que publique textos com a mesma qualidade dos que saem em revistas como piauí, Vanity Fair, The Economist e New Yorker?
5 - Para o profissional de jornalismo, quais são as ferramentas que ele deve utilizar para se atualizar e poder atuar em jornalismo tanto impresso como digital?
R- Sinceramente acho uma falácia essa história de jornalismo de web. Jornalismo é jornalismo em qualquer meio. Tirando alguns detalhes de edição, o trabalho é absolutamente o mesmo do impresso. Se você quer fazer algo de qualidade, é preciso ir atrás de fontes bacanas, fazer uma pesquisa profunda (que você não consegue fazer acessando apenas o google!) e ser bom naquilo que escreve. Entender do assunto. Mas, como falei lá atrás, o jornalista precisa ser mais plural e versátil, por conta das novas tecnologias.


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